Jun 7, 2011

O mundo real não é o Rancho da Pamonha

É possível argumentar com lucidez que o brasileiro paga impostos em demasia.

Com números e propostas na mão, pode-se até fazer um debate produtivo e chegar a bons caminhos. Também é necessário aproveitar melhor cada centavo que se entrega para o governo, evitando o desperdício, o desvio e a corrupção. Não é o que acontece até agora, porém.

Por enquanto, estamos num debate que me obriga a recordar o destino do mais recente Papai Noel do contribuinte americano, o halterofilista-ator-governador Arnold Shwarzenegger.

O ex-mister Universo cortou tantos impostos que deixou a Califórnia em estado de calamidade pública. Até presos foram mandados para casa porque o Estado não tinha dinheiro para lhes dar comida. Se as cadeias ficaram assim, imagine os hospitais, as escolas…

Na prática, a falta de recursos simplesmente inviabilizou o funcionamento do governo de um Estado que possui um PIB maior que o de muitos países. Como demonstrou uma reportagem recente da Economist, sempre fiel à sua doutrina a favor de um Estado Mínimo, boa parte da responsabilidade pelo fiasco deve-se à atuação de cidadãos bem intencionados que forçaram a aprovação de leis de seu interesse mas que não levavam em conta as necessidades de toda a população. Cada um foi seu próprio Papai Noel. No final, não havia dinheiro para pagar tantos presentes.

Essa é a discussão necessária quando se fala em cortar impostos. Se você quer pagar menos para o Leão, deve pensar em números grandes, que representam bilhões de reais entregues para o governo. Por exemplo:

Vamos diminuir as verbas para a saúde, que já perdeu 20 bilhões com o fim da CPMF? Cortar o salário de professores? As aposentadorias — mais da metade custam meio salário mínimo — serão reduzidas? Vamos diminuir o salário dos policiais? Que tal cortar o Bolsa Família? Ou vamos suspender os investimentos em aeroportos? Alguém defende o fim das obras do metrô?

Paulo Moreira Leite, na Época (via Daniel Lima, no Twitter)

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